Entenda por que a água do mar está mais quente em Santa Catarina neste ano


Influência de uma corrente quente e falta de ventos contribuem para o fenômeno, que deve durar alguns meses



Água da praia do Pântano do Sul, em Florianópolis, registra neste ano 8°C a mais do que em janeiro de 2016Foto: Cristiano Estreça / Agencia RBS


Gabriele Duarte e Simone Feldmann


gabriele.duarte@diariocatarinense.com.br;simone.feldmann@diariocatarinense.com.br


Se você aproveitou o fim de semana em alguma praia de Santa Catarina, deve ter achado a água mais quente do que o normal. Não foi impressão, em praias como o Pântano do Sul, em Florianópolis, a água está 8ºC mais quente do que no mesmo período do ano passado. Segundo o oceanólogo Argeu Vanz, da Epagri/Ciram, a temperatura da superfície está em média de 1,5ºC a 2ºC mais alta do que em janeiro de 2016. 


— O que se supõe é influência da corrente do Brasil, uma movimentação de água quente que deve continuar afetando toda a costa catarinense por mais alguns meses. Outro fator que influencia a temperatura da água é a falta de vento, o que faz que a superfície da água tenha menos movimentação e ela receba mais calor — explica Vanz.


O oceanólogo esclarece que o fenômeno não é atípico, o que não afeta os organismos presentes no mar, que já estão adaptados a essas mudanças de temperatura. O alerta fica para os banhistas, que tendem a se aventurar mais pelas águas, aproveitando a temperatura mais agradável. A recomendação é que fiquem atentos às orientações dos guarda-vidas.


A Epagri/Ciram não realiza a medição da temperatura da superfície do mar, mas acompanha os registros via satélite e dados obtidos de navios e boias oceanográficas. Na imagem divulgada no último domingo, é possível perceber a faixa vermelha entre o Paraná e Sul de Santa Catarina, o que indica temperatura entre 27ºC e 28ºC, sendo que a média na região varia de 24ºC a 25ºC.

Foto: Epagri/Ciram / Divulgação


Marlon Daniel da Silva, responsável técnico da Fatma, explica que a temperatura da água tem relação com a procriação de organismos vivos, mas não deve haver uma grande influência na proliferação de bactérias como Escherichia coli, principal indicador da balneabilidade das praias, pois esse tipo de organismo já está acostumado com as variações. O mesmo deve ocorrer com as águas-vivas, que tendem reproduzir-se mais em águas quentes. 


— O que pode acontecer com esse aumento de temperatura da água é a proliferação de algas, o que pode ser nocivo para a maricultura. Mas ainda não é uma situação preocupante, já que temos a vantagem de que a temperatura tem diminuído à noite — esclarece.


A partir do histórico dos registros de balneabilidade da Fatma, é possível observar a temperatura constatada durante as coletas nas praias do Litoral de SC. A diferença da temperatura registrada em janeiro de 2016 e no começo de 2017 chega a 8ºC em algumas praias, como o Pântano do Sul, 7°c no Campeche e 6°C em Jurerê, todas em Florianópolis.


Mas o fenômeno pode ser registrado em todo o litoral catarinense. Em Imbituba, na Praia da Vila Nova, por exemplo, a diferença é de 5°C. Já no Litoral Norte, como nas praias de Barra Velha, Praia Vermelha (Penha) e Mariscal (Bombinhas), a água está 3°C mais quente em relação a janeiro de 2016.


Impacto na vida marinha


A tendência de aquecimento das águas não é só percebida no Sul do Brasil, mas em todo o mundo, segundo o professor do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar, Paulo Ricardo Schwingel, com base em medição feita pela própria Universidade do Vale do Itajaí, onde atua. 


— Isso é um reflexo do aquecimento global, mesmo que muitas pessoas ainda tentem minimizá-lo. Monitoramos as adjacências de onde o rio Itajaí-Açu desemboca no mar e podemos ver temperaturas mais altas nos últimos anos, assim como em outros pontos do Estado — explica o pesquisador. 


A única ressalva feita por Schwingel é em relação à diferença de temperatura observada na praia do Pântano do Sul, em Florianópolis. Os 8ºC a mais de 2016 para 2017 são explicados pelo sistema de ressurgência associado aos ventos que, neste ano, estão mais fracos.




Pesca artesanal também pode sofrer impacto com as mudanças registradas na costa catarinenseFoto: Cristiano Estreça / Agencia RBS


— Há uma particularidade, porque no Sul da Ilha temos águas mais frias devido a um efeito de ressurgência [fenômeno que faz com que as águas mais frias subam para a superfície] próximo a Laguna. Teoricamente, essa água mais fria deveria ter sido afastada dali pelos ventos e ido em direção ao Pântano do Sul, mas os ventos não são idênticos todos os anos. Isso é natureza, não tem problema nenhum — avalia.


Especialista em oceanografia biológica, Schwingel ainda explica o impacto da água mais quente na vida marinha em um esquema de compensação em que os animais adaptados às águas mais quentes, como a sardinha, tendem a expandir a área de ocupação, enquanto aqueles adaptados às águas mais frias perdem espaço. 


O presidente da Federação dos Pescadores do Estado de Santa Catarina (Fepesca), Ivo Silva, garante que isso já é sentido pelos pescadores catarinenses. 


— Estamos acompanhando essa situação extraoficialmente, mas já temos observado diferença. Espécies de água mais fria, como a merluza e o atum, estão mais afastadas da costa, o que logicamente diminui a produção. A pesca industrial mais uma vez ganha força em relação à artesanal — lamenta.


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