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Ex-lateral Leandro fala de títulos, bastidores e decepções com as camisas de Galo e Raposa

Ser respeitado por torcedores de Atlético e Cruzeiro é algo raro para jogadores que escolheram defender as duas equipes rivais. No caso do ex-lateral Leandro, andar pelas ruas de Belo Horizonte e receber o carinho de alvinegros e celestes é uma situação comum.

Aos 38 anos e curtindo a experiência como comentarista na Rádio Itatiaia, o carioca aproveita os dias na capital para matar as saudades dos amigos que fez nos tempos de atleta.

Nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, Leandro relembra como começou a trajetória do surpreendente Cruzeiro de 2003, fala porque o Atlético de 2010 foi um fiasco e, sem papas na língua, revela curiosidades dos bastidores do mundo da futebol. 
 

Como está o dia a dia de comentarista de rádio?
Foi uma ideia do Thiago Reis. Citaram meu nome, ele gostou e entrou em contato comigo. É um programa de resenha para quebrar esse gelo de como está o futebol. Quando faz uma pergunta a um jogador hoje, ele já vem preparado pelo assessor ou pelo clube. Tem dado certo demais.

Pensa em seguir neste ramo?
Estou indo. Não gosto de planejar muita coisa não. Gosto de viver o momento e ir. Não fico sofrendo por ter parado de jogar. Estou curtindo meus pais, minha irmã e meu filho. Gosto de dar risada, de brincar, e sempre fui assim. O programa é isso mesmo, até para tirar o foco do futebol. Temos recebido elogios.
Para muitos, você é baiano, por ter se destacado no Vitória. Mas poucos sabem que é carioca e começou no América-RJ. Por que não despontou na sua terra?
Fui indicado no Fluminense, mas ninguém deu bola. Assim como no Flamengo. Fui para o Vitória e deu tudo certo. Lá, fui considerado o melhor lateral-esquerdo do Brasil no ano de 1999.

Sua primeira experiência em Minas Gerais foi no Cruzeiro, em 2002. Como foi?
Vim para disputar a vaga do Sorín. Fui bem na Copa dos Campeões, mas perdemos na final para o Paysandu. Começamos mal o Brasileiro, e o Marco Aurélio caiu. O Vanderlei (Luxemburgo) chegou, nos recuperamos e não classificamos por um gol.

O Alex era bastante cobrado naquele ano, não é?
Rescindiram com ele quando ele estava no avião. Ele não queria mais voltar depois. O Luxemburgo disse que pagaria o salário dele se voltasse.

“Aquele grupo (Cruzeiro de 2003) não tinha vaidade, do mais novo ao mais velho. Tínhamos um elenco forte, montado no ano anterior. Nos apresentamos antes, fizemos pré-temporada em Araxá, e essa foi a diferença. Não tinha badalação naquele time”


Como foi aquele time de 2003? Qual era o diferencial?
Aquele grupo não tinha vaidade, do mais novo ao mais velho. Tínhamos um elenco forte, montado no ano anterior. Nos apresentamos antes, fizemos uma pré-temporada em Araxá, e essa foi a diferença. Não tinha badalação naquele time. O carro-chefe era o Alex, que tinha a desconfiança da torcida. Nossa estrela maior era o Vanderlei. Ganhamos o Mineiro e ganhamos confiança para a Copa do Brasil e, depois, o Brasileiro. 

 

Tinha muita farra fora do campo? Isso faz falta no futebol?
Vanderlei sempre falou que tem momento para tudo. Para beber, para curtir e para tudo. Tinha jogador que bebia bastante no nosso time, mas nunca perdeu um treino nem deixou de correr. O Ronaldinho Gaúcho é meu amigo. No Atlético campeão (2013), todo mundo sabia o que ele fazia, mas corria para ele. Em campo, ele fazia a diferença. Em 2003, o Maurinho bebia demais, mas corria mais que todo mundo. 

Por que você não deu certo no Porto?
Fui vendido do Cruzeiro para o Porto. O treinador espanhol que pediu minha contratação caiu, e o português que assumiu tirou todos os brasileiros. Falou que minha função era só marcar. Mandei ele colocar um zagueiro na posição. Na volta, o técnico era holandês. Joguei a pré-temporada, mas machuquei o reto femoral. Times do Rio me queriam, mas nada de me emprestarem. Voltei machucado para o Cruzeiro, com o PC Gusmão. Eu disse que não tinha condições. Não conseguia jogar e fui muito cobrado.

O que aconteceu entre você e o Dr. Ronaldo Nazaré?
Ele era muito meu amigo, mas acabou ficou chateado comigo, e não foi a mesma coisa. Ele era o chefe do departamento médico. Eu perguntava se ia voltar, mas, num certo momento, ele disse que a infiltração que ele me deu era a última tentativa para eu voltar a jogar. Comecei a chorar. Pedi ao Eduardo Maluf (então diretor de futebol) para ir ao Dr. Runco (ex-médico da Seleção Brasileira), e ele liberou. Ele me disse que eu voltaria com toda certeza. Fiz o tratamento em Portugal, mas, quando voltei, ele (Nazaré) tinha sido mandado embora.

E o Atlético de 2010? 
Quem pediu minha contratação foi o Celso Roth, em 2009. Ele me ligou e estava ao lado do Alexandre Kalil. Esse é um presidente do c***. Olha o que ele fez pelo Atlético... Comigo, ele só perguntou se eu queria jogar no Galo. Eu disse que iria na mesma hora, ele respondeu que estava fechado e desligou o telefone. O Roth acabou caindo, e o Vanderlei assumiu em dezembro. Pensei que aquele time fosse voar. Mas o fechamento do Mineirão atrapalhou tudo. Jogar em Sete Lagoas foi ruim, as coisas começaram a desandar.

Tinha jogador que bebia bastante no nosso time, mas nunca perdeu um treino nem deixou de correr. O Ronaldinho Gaúcho é meu amigo. No Atlético campeão, todo mundo sabia o que ele fazia, mas corria para ele. Em campo, ele fazia a diferença. Em 2003, o Maurinho bebia, mas corria mais que todo mundo”


Por quê?
Não deu liga, uma pena. Fiquei chateado demais. Queria muito que desse certo, mas acontece. O Vanderlei caiu, o Dorival assumiu, mas continuou difícil. Até o Diego Souza ficou muito chateado. Com a reserva, ele pediu para sair e me disse que seria campeão no Vasco. Falei para não ir, que o salário lá estava atrasado. Eu dormia com ele na concentração e fiz de tudo para que ele ficasse. Não teve jeito. Ele queria ser campeão lá e foi, na Copa do Brasil.

Existia muita vaidade naquele time?
Tinha. No futebol, quando você não ganha, aparecem muitas coisas. Quando você ganha, os problemas existem, mas todo mundo conta rindo.

E o Kalil, nessa crise?
Ele estava do lado do Vanderlei no pior momento. Deu carta branca pra ele. Sempre deixou claro que era atleticano. Ele se reuniu conosco e chorou quando mandou o Luxemburgo embora.

Como o grupo encara esse tipo de momento?
Nós sentimos. Não queremos ver o time nesta situação. Eu chegava em casa e brigava com minha mãe. Ia para o quarto e não queria papo com ninguém. Eu descontava na minha família. O grupo inteiro sentia. Até pelo presidente que tínhamos. Quando ia atrasar salário, ele avisava e cumpria a data.

leandro

O que Atlético e Cruzeiro representaram na sua carreira?
Muita coisa. O povo mineiro te abraça e sempre te recebe muito bem. Você toma um café e fica satisfeito até a janta. Sou muito grato aos mineiros. Por mais que tenha conquistado mais no Cruzeiro, no Atlético eu ganhei o Mineiro e também sou respeitado. No Rio, brinco que sempre que tiver um clube de Minas em campo, eu vou torcer por ele. Os caras não gostam quando eu falo isso, mas aqui é onde eu fui reconhecido.

Faltou alguma Seleção na sua carreira?
Fui até convocado, mas, na minha época, a concorrência era muito mais complicada. Tinha Roberto Carlos, Athirson, Júnior e outros. Era bem grande mesmo a disputa.

Você convive muito na periferia do Rio, onde nasceu. Como é essa relação? Não fica nas mãos de traficantes, até pelo dinheiro que conquistou?
Os caras me respeitam. Muitos são meus amigos e eu os defendo. Cada um seguiu seu rumo, sua vida. Muitos foram para esse lado, cansei de ficar com ele, e jamais me ofereceram absolutamente nada. A questão do dinheiro, alguns confundem, mas outros não. Quando posso ajudar, a comprar um gás, uma certa básica ou outra coisa, eu faço questão de ajudar. Na comunidade, você se sente em casa e, às vezes, é muito mais respeitado que na Zona Sul. Os ricos, às vezes, não dão nem bom dia. 

Você se sente realizado? E já tem um herdeiro no mundo da bola?
Estou realizado. Nunca planejei nada. Queria dar uma casa para minha mãe, batalhei e dei. Depois, fui vivendo. Meu filho Leandrinho tem 15 anos, canhotinho, e se quiser ser jogador, vai ter que provar que merece. Arrumei um time para ele em Goiânia. Vai sofrer lá um pouco, e nada de time grande por enquanto.

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Categoria:Esportes

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